segunda-feira, 6 de novembro de 2017

viajei

chega do nada
entra sem pedir
pega um gole de café
começa a tossir lembrando das noites ansiosas
por onde andou
onde andei
viajei
nas ondas mais frias possíveis
pra só agora descobrir
que na verdade
as infinitudes todas moram aqui
viajei
não vi
ri
achei graça
do nada
sem pedir
tossir
eu quero assim.
eu nunca mais fui
nunca mais sonhei
não sei mais
se agora sou eu
se essas vozes são seguras
se todo esse filme que começa sem diretor
e acaba sem trilha sonora
é o fim
mas pra mim
assim
que chega
do nada
e quando vai ver
já foi.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Anos 90

Acordei com olhos de cachaça hoje.
Foi terrível engolir de tão seca que a boca estava. 
Entalava o nada na garganta e eu ainda me perguntava se alguém teria lembrado da rainha.
Sozinha.
Era assim. 
Tipo um filme dos anos 60.
Cinema francês.
Romance, 
disfarce,
cansei. 
E do nada lembrei da sereia que vinha e me trazia sonhos.
Eu acordava como se o mundo tivesse acabado.
Era o caos voltando para me dar bom dia.
Está tudo bem?
Eles perguntavam,
e minha cara inchada dizia que não.
Minha voz fosca dizia,
tudo.
Tudo que eu aprendi nesse meio tempo de comer o lanche foi nada.
O nada que sufoca, sabe?
Aquele que fica dançando na cabeça e quando finalmente fala o que tinha pra falar...
Nada.
Porque o nada é o nada.
Ela era a princesa dos anos noventa. 
Cigarro de quase setenta,
cabelos rebeldes de quem já não aguenta mais.
Não estou aqui pra brincar,
dizia.
E eu ria, 
porque tudo isso nunca passou de uma brincadeira.
Bebia calmamente e dizia,
olha só que brisa.
Passou.
Tão rápido que nem vi,
e quando acordei de manhã já não era mais princesa.
Era nada.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Puta

Teus restos de nada que me descem como goles frios de café.
E eu sabia desde o princípio que ia passar. E passou.
Bagunçou o cabelo.
Senti desde o começo,
aquela intensidade de mar.
Oceano pra peixe que não sabe nadar.
E nada,
nada é como pensei que fosse,
porque o contrário sempre virá para confundir.
E tudo bem.
Mesmo.
Me contento em ser apenas puta.
Com ainda seus hematomas.
Seus agradecimentos que eu não entendi muito bem.
Mas tubem bem, meu bem.
Menos no mais,
afinal,
menos é sempre mais.
Por isso que meu mais é sempre menos.
Sempre.
De menos.
Sou puta.
Vendo os outros rirem e eu aqui.
Ainda puta.
Sua puta.
Toda sua.
Afinal, todos nós vendemos prazer.
Eu vendo prazer.
Prazer,
você.
Nunca mais.
Aceito cartão.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Essa tua miséria me cheira a afeto

Escuta,
essa sua loucura que você chama de liberdade é uma merda.
E sabe onde eu encontrei isso? 
Naqueles olhares que eu te entregava sem esperar que você retribuísse os mesmos. 
E você me agradecia. Que tipo de pessoa agradece pelo modo como você a olha? 
Você.
E eu entrei nessa sua dança que mais parecia samba.
Sambei mesmo.
E voltei pra realidade fria que me arrebenta a cara todo santo dia ao imaginar que você está bem.
Porque eu fiquei mal. Pensei que você estava mal.
E ainda estou.
E você está lá. Bonito e iluminado como se eu não tivesse passado por aqui, e talvez eu não tenha passado mesmo. 
Foi coisa linda da minha cabeça. Certeza.
Imaginei você.
Imaginei sofrer. 
Porque sofrimento e agonia é coisa que me agrada.
É poesia pelada. 
É coisa da minha cabeça que eu vejo com tanta clareza que até parece verdade.
Não é a toa que te achei, e te olhei daquele jeito.
Feito vento.
Te contei parte de mim, e achava que você dividia comigo parte dessa sua loucura.
Essa neura toda de que todo mundo é uma merda. O que não é surpresa.
E se eu pudesse apostar como tudo isso iria terminar, eu ganharia um milhão.
Um milhão de promessas incertas e preces de quem não tem fé.
Eu tive.
E ainda tenho.
E quero te arrebentar a cara.
Porque tenho raiva.
Enganada.
Prostituida em troca de miséria.
Esse teu afeto é uma farsa.
Até quando essa sua máscara vai suspender diante dessa cara bonita?
Me responde.
Mas escuta,
eu te quero bem sujo.
Na rua,
apodrecido,
pensando em tudo o que viajamos,
e que venha.
Como sempre fez.
Porque eu sempre estive aqui.
Sempre.
Mas sempre como escape.
Porque eu sou isso mesmo.
Nada mais que isso.
Só isso.
Eu não sirvo para nada mais além disso.
Entende o que digo?
As pessoas sempre querem falar.
Escutar? Jamais.
Sempre querem dividir seu peso.
E eu não quero falar mais nada.
Não acredito mais em quem tem dois olhos e um coração.
Porque todos são cínicos como o amor verdadeiro.
Todos te querem como escape.
Porque você é uma válvula mesmo.
Aceite.
Você não é nada a mais que isso.
E vão te julgar sim.
Vão te comer a alma por você ter se disposto a isso.
Mas como você não viu?
Tão óbvio!
Ótimo.
Me beija então.
Vocês falam demais.
E ninguém se importa.
Fiquei tão monstruosa depois desse novo filme,
que hoje estou aqui,
prostituta,
e santa,
de cabelo grande e bem negro,
calcinha branca,
mamilos pequenos,
mão lisas,
Lolita numa delas,
minha alma,
minha lama,
e olhando friamente pro próprio filme da minha vida,
e percebendo que foi mal filmado.
Você sabe que eu sou tudo aquilo que você sonhou.
E correu.
Quero seu sofrimento agora.
E depois disso,
quando estiver no inferno de novo sentado no colo do capeta implorando atenção,
eu estarei aqui.
Sua prostituta.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Oração

Estava no inferno,
abraçando-o com dois braços secos de quem pede arrego e proteção.
Um gosto amargo de café na boca,
e nas mão um tapa.
Acendia vela toda segunda-feira.
Se dizia santa,
mas era melhor amiga do capeta.
Brincava com ele,
trocava confidências,
e confiava nele como em ninguém.
Rezava missa,
cumpria promessa,
amava pra sempre.
Apagava a vela.
Hoje acordou com saudade.
Deve ser promessa esquecida.
Deixaram de cumprir.
Pediu ao santo que renovasse seu rosário.
Mas já estava no inferno.
Nua,
sozinha,
e se fazendo de auto-engano.
Mas sabe-se bem que seus olhos já estão na coroa da Rainha.
Agora chora, menina.
O que tu tem é saudade.
Tu virou promessa esquecida.
Pois acenda vela de novo.
Faça promessa pra santo ver.
Tua saudade, hora passa.
Tua promessa tu não pode ter.
Aceita.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Natal

Te coloco em flores.
E a cada reza, 
peço aos demônios que te coroem,
e eu direi a eles o que quero de Natal.
Já separei tudo.
Escolhi a roupa,
a música que vai tocar na vitrola,
o vinho que beberemos,
e todas as cores.
Verde nas paredes,
e um laranja escuro no chão.
Não marrom.
Laranja escuro.
No chão.
Vermelho na boca.
Na sua, 
nada.
E eu,
acompanhada.
Quero apertar o fôlego,
fazer granada.
É natal.
Te deixo em cores vivas.
Festivas,
porque gosto desse clima.
Você tem um pouco disso de festa junina.
Te coloco em retrato,
porque teu corpo é luz,
enquanto eu me apago.
Me acende,
eu mato.
Mato em cada grama desse teu corpo iluminado,
um sonho ou esperança que antes eu tinha inventado.
Te coloco em flores.
Te quero com cores.
E te ponho em 10 retratos.
Todos no canto do quarto.
E eu,
de quatro.
Teu corpo é um manifesto de amor.
Eu já escolhi a roupa.
É natal.
Nenhuma.
Te coloco em flores.
Vermelho na boca.
Na minha.
Na sua,
nada.
E eu nadando no caos.
Me acende,
eu mato.
Mato cada sorriso que dei pensando em quantos maços.
De cigarro, é claro.
Não fumas muito,
mas gosto quando fumas.
Quer mais uma?
Ok.
Te libero pra uma libertina.
Festa junina.
Gosto de ti assim,
em cores vivas.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Menino

Lembro de ti.
Lembro de mim.
Lembro de quando teus sonhos te dominavam.
Tu parecia menino perdido.
Não tinha dono.
Não tinha medo.
Não tinha nada.
Mas tinha eu,
pra ser marinheira,
com você.
Eu perguntava:
Me abraça?
E tu sem pensar respondia:
Te abraço.
E me abraçava.
Tu ria das coisas que eu falava.
Dizia que meu olhar sempre brilhava,
principalmente quando eu estava apaixonada.
Lembro de ti fazendo piada.
Tu não tinha nada nas costas,
e mesmo assim,
me carregava.
E carregava um peso que não era só seu,
era meu também,
e por isso me abraçava.
Queria eu saber antes que de tudo não valeu nada.
Tu riu de mim,
fez de mim piada,
e eu esperando teu barco voltar,
abracei o mar e me pus em retirada.
Tu não voltou,
e eu não estou dando risada.
Lembro do tempo em que tu me abraçava,
e mesmo assim não me cobrava de nada.
Não sei se me agrado da tua partida,
ou se choro pela tua chegada.
Mas tu não chega mais.
Lembro do tempo em que tu me abraçava.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Daquelas

Estes teus infinitos completos.
Parece coisa pouca, né?
Olha pra mim.
Eu sou pouca pra você?
Tô bobeando, não tô?
Tá apaixonado, é?
Não é por mim, que eu sei.
Se fosse,
eu não estaria aqui tão vazia.
Mas você sabe o que faz.
Vem.
Dança comigo.
E sai.
E eu fico.
Fico como?
Esperando você dizer que tá tudo bem
e que quer me ver?
Fico como? 
Fumando sonhos sozinha.
Jogando promessa pra santo,
pra ver se meu amor é recíproco.
Escuta,
não é não.
Se fosse eu não estaria aqui.
Feito cavalo marinho fora d'água.
Mas você não liga mesmo, né?
Tudo bem.
Faz assim ó:
me ame só hoje.
Só hoje.
Só.
Só hoje.
Porque hoje eu preciso.
Amanhã você levanta cedo,
faz o café,
bagunça meu cabelo,
risca meu corpo,
me aperta a vida, me beija,
e sai.
Mas deixa o café ao lado de mim.
E deixe um cigarro também.
Porque a vida tem dessas.
Mas eu sou daquelas.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Promessa n°1

Olha,
eu não tenho nada pra dizer.
E não sei escrever o que eu deveria falar.
Queria rabiscar alguma parede de casa
com cera de vela pra ninguém ler
os contos mais insanos
que minha cabeça cria
e não ter que esconder
que o que eu queria ali
não estava ali.
Muito distante de mim,
foi assim.
Corri pelo corredor,
gritei teu nome pela minha cabeça,
e nada.
Tu distante demais,
e eu tão,
mas tão perto do inferno
que escutava as batidas do coração de qualquer um,
perdido,
sem risco nenhum a correr,
só assim,
perdido mesmo.
Tipo eu agora escrevendo isso,
sem noção nenhuma de perigo.
Acho que vou guardar isso,
porque é bem bonito até,
e antes mesmo que eu soubesse,
eu já estava toda envolvida.
Feito laço,
feito bicho sem dono,
com sono,
procurando colo,
e tu lá,
sempre tão distante.
E eu aqui,
mais perto ainda.
Vem.
Senta aqui,
se encosta em mim,
me fala umas coisas sem sentido,
deixa eu sentir como seu braço é quente,
e me arrepia inteira,
e eu disfarço,
e desconverso,
porque já estou tão,
mas tão perto do inferno,
que qualquer coisa boba eu já nem nego.
Tá confuso mas eu tô segurando.
Meu terço,
minha reza
e minhas promessas.
E eu lá perdida naquela escuridão,
com umas luzes engraçadas dançando em mim.
E nada de mim,
porque você estava tão distante.
E demorou pra ser,
e ainda não é.
E eu sei esperar,
mas não.
Deixa eu quieta aqui.
Porque você levantou sem dizer nada,
e eu fui embora levando comigo todas as suas palavras.
Você é desses.
Promessa rara.
E como eu nunca cumpro promessa,
te deixo aqui.
Pegue ali na saída suas malas.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Sem título

É aquilo que te sufoca,
mas conforta,
das asperezas,
destreza,
Queria mesmo é virar tudo o que estiver na mesa
e mesmo assim
querer que tudo fosse uma certeza.
Daquilo que te mata,
e depois da segunda cerveja,
afaga.
Me fala,
aquilo tudo,
daquele dia lá.
Lembra?
Entra,
se achegue.
Pode se achegar.
Do lado de cá,
eu vi,
entre olhares tortos,
sentimentos meio mortos,
de fim de rua,
daquela menina meio nua,
parada lá,
sozinha,
esperando a ceia de natal
e outros favores.
Meus senhores,
escutem bem o que vou dizer:
"É da aflição que digo,
dos amores não correspondidos,
que grito,
através dos olhos lindos de cigana que desvio."
É isso, querido.
É isso.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Quero uma padaria, Rita

Já que amas ouvir história, tenho uma história de não história pra te contar.
Rita me contou que se eu rezar direitinho, todos os dias, sem titubear, posso viver de sonhos e montar minha própria padaria.
Já Sarinha, insistia que nem só de sonhos vive o homem, e disse pra eu plantar flores. Elas iluminariam meu caminho e me diriam o que fazer.
Não fiz um nem outro. 
Escolhi por assistir um filme que estava passando de madrugada na tv aberta. Não entendi nada, mas percebi que mesmo que eu rezasse direitinho, todos os dias, não teria nem padaria, nem sonhos nem nada.
Percebe?
Eu sou um nada com vestido de bolinha.
Queria estar nua, mas tenho uma multidão atrás de mim quando queria estar sozinha.
Rita mesmo já dizia: TIRA ESSA ROUPA, MENINA!
Mas ninguém gosta do meu corpo.
Eu sou um desastre em forma de poesia.
Pudera eu pilotar aviões sem guia.
Bateria uns três só pra ter friozinho na barriga.
O que acontece de verdade, é que eu já não mais sorria.
Tá tudo meio bagunçado, tia.
Eu não tenho culpa se o teu santo não é forte, querida.
Pois é,
bem que eu queria.
Rezei todos os dias, 
e não tive nem sonhos,
nem flores,
nem padarias.

Para Antônio Nicodemo, 
o menino que ama ouvir histórias.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Com amor, Sara

Você vinha e dizia tudo o que tinha pra dizer 
e eu nunca falava nada.
Segurava minha mão,
rezava,
fazia promessa,
e depois me regava com aqueles olhos piedosos de quem mente e não sabe porque mentiu.
Me segurava forte pela cintura,
por vezes descia a mão, 
e eu apreciava com ternura,
sempre mais contemplação 
do que doçura,
eram sempre mais promessas
do que a verdade nua.
Mais nua ainda do que eu,
deitada no chão,
com as costas frias
e as coxas quentes.
Sem saber o que dizer de novo,
nunca sabendo pra onde olhar,
fixar um ponto.
Peguei um cigarro,
acendi nas suas incertezas,
era só uma noite,
sem créditos a mais,
flores mortas no sofá 
ou vinho derramado no tapete.
Era aquilo ali mesmo, Sara.
Você, 
nua no chão,
com as costas frias,
e ele lá,
te olhando fumar,
fumando também,
cantando mentalmente Garota de Ipanema,
coisa que você não é,
pois é mais filha de São Paulo do que a própria garoa,
e estava lá tentando entender o quão demorado seria mais essa ilusão.
A última durou 3 meses,
ou por volta disso.
A outra,
mais.
Mas todas duraram.
Queria saber se ia ter tempo de preparar o café,
ou se até lá já teria acabado,
ou quando tivesse acabado o cigarro,
quem sabe,
Sara possa ter terminado.
Terminou-se então ali.
Sara no chão,
terminada,
ele no sofá seminu,
começando.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Deus

É da loucura que falo,
é da insegurança que sinto,
da insanidade que me transborda,
tudo isso me espera à porta,
e eu aqui sem saber pra onde correr.
Me encaro nos espelhos de qualquer loja,
me sinto vazia,
distante,
morta.
Vem de encontro ao meu não sei.
Me escuta,
estou a gritar.
Estás disposto a seguir tudo isso de novo?
Passar por tudo isso de novo?
Cavar buracos no asfalto de novo?
De nono,
de novo,
e novo,
não posso,
não posso,
não posso
e corro.
Tudo bem,
acho que agora estamos bem.
Um bem de não saber dançar.
Um bem de não se encontrar.
Já viu a lua hoje?
Tá linda.
Bem que eu poderia.
Mas não.
Já não posso mais.
É desse descaso que corro,
é dessa infinidade que torço,
é dessa música que canto,
pra você dançar pra mim.
Um mim tão de mim,
que só assim que me faço meu.
Acabou.
Adeus.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Tchau.

Eu vou vê-lo de novo?
Vou tocá-lo?
Vestido de incertezas e implorando chuva aos deuses, pelo menos por mais uma vez, de novo?
Vou poder questioná-lo o porque de tudo estar bagunçado e por não ter tomado o café que lhe deixei na mesa?
Já estava frio?
Eu juro que me atentei a deixá-lo quente, fresco e bom. Como costumava ser quando chovia e deixava o chuveiro ligado, com a porta do banheiro bem aberta, sem toalhas penduradas. Só o vapor quente de mais uma vida se desgastando por um café, e a chuva lá fora gritando para que eu a apreciasse. 
É engraçado ver hoje o que antes não via. Se eu pudesse correr, certamente correria. Mas aqui fiquei com o propósito de entendê-lo. 
Veja bem o que quero dizer. 
Você se conhece tão bem a ponto de dizer que tudo está pendurado no universo, suspenso por sonhos de cursar Filosofia e música e ser feliz?
E o café! Pois é!
Esfriou. 
E eu ri da sua cara de desapontamento.
Só não me deixe aqui. 
Você prometeu voltar e eu prometi não fazer mais promessas. Você sorriu, não mentiu e continuou prometendo sobre me levar a lugares e fazer coisas.
Acontece que eu não quero ir a lugar nenhum e nem fazer coisa alguma.
Vá bem, querido. Te vejo em alguns desses bares desgostosos da vida.
Sobre o teu corpo?
Vou me lembrar dele, dos prazeres e das agonias.
Fique bem. Se não puder voltar, amém.
Vou ficar aqui me recordando das coisas que nunca falamos.
Daquele beijo na testa e suas mãos implorando misericórdia sobre o meu corpo de santa.
Mas tudo bem, mande um beijo para aquela lá e outras tantas.
Fico no aguardo de novidades.
Quando quiser voltar, sentir meu cheiro e me prender bem firme pelo cabelo,
vou lembrar de todo o desprezo e agradecer por não ter que perdê-lo.
Nunca foi meu, né cara?
E eu tô nessa mesmo.
Nessa de não saber pra onde ir.
Mas vou.
E vou vê-lo de novo?
Vou tocá-lo?
Acho que não.
Não quero mais.
Beijo.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Me aceite

Quero um buquê de flores de plástico no meu aniversário.
Quero teus sonhos junto com os meus,
colados numa mesma parede,
ao lado de umas plantas penduradas,
com raízes soltas na vida,
igual a gente aquele dia,
voltando da sua casa
semana passada.
Olha só,
acabei ficando por lá mesmo
porque a paisagem era mais bonita,
da que eu vejo lá de casa.
Aquela vista
não me lembrava nada,
mas lá,
na sua,
eu vejo mil coisas.
Coisas legais.
E fiquei por lá.


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Impressões sobre Pater, do Teatro da Neura

Do pai que já não era mais pai, nem padre, nem nada. Cavava sua sepultura em um corpo quente de criança inocente e já maculada por aquele que devia proteger e ensinar a rezar pela vida. Mesma vida fria, que de longo tempo vinha escondida, pelos brinquedos, pela dança no meio da sala e da dor que cresce a cada dia naquele canto escuro. Cama pequena, olhos fechados, cortinas encostadas. 
Olha criança, isso passa, tá?
Passa nada.
Debaixo da cama não tem sonhos, não tem monstros, não tem nada. "Debaixo da cama tem arnica".
Ela precisa se lavar. E vai arder e vai sangrar. 
É menina inocente que não sabe se chora quando sente, mas sente toda vez que chora. Deita a cabeça no travesseiro e dorme. A manhã não tarda e essa história para si guarda. Guarda mesmo que do céu não passa.
"Debaixo da cama tem arnica. Se lava."
E ela rezava. 
"Pai nosso que estás no céu."
Não tem pai, não tem céu, não tem nada.
"Santificado seja vosso nome."
Não tem nome, não tem choro. Santificado era aquele pequeno corpo que se afogava em si mesma, escondida atrás de lembranças, atrás do vento que balançava o cabelo e pela luz das velas gastas, escorridas pela madeira velha pintada de rosa igual seu rosto. Rosa. 
Do pai que já não era mais pai, nem padre, nem nada.
Debaixo da cama tem arnica, lembrava. 
"Se lava."




Conheça:

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Meu mar levo comigo, mas deixo contigo as minhas paixões.

Então essa é sensação?
É assim que as pessoas se sentem quando os planos dão errado?
É esse desespero contido, uma vontade de não fazer nada e ao mesmo tempo de tentar entender, de tentar conversar, explicar aquilo que nem você mesmo acredita, mas quer falar só pra ter mais tempo olhando aquilo. E apreciando, e novamente tentando entender. 
Então você conta a alguém próximo, e esse próximo diz que o próximo vai me fazer mais feliz. E o que seria da felicidade sem os meus sorrisos então?
Não conseguiria responder sendo que os meus sorrisos mais dignos foram com aquilo que o próximo há de cobrir.
Ninguém devia cobrir ninguém. Ninguém devia completar ninguém.
Eu só devia parar de me preocupar e por mais cruel que seja seguir em frente, eu deveria.
Sabe aquele mar de paixões que eu despejei em você?
Há de secar, e do mar só ficam as boas coisas.
Eu vou.
Ele fica.
Meu mar levo comigo, mas deixo contigo as minhas paixões.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Ela está bem?

Estávamos sentados dentro do carro sem saber muito bem o que fazer. Eu respirava devagar para evitar que fizesse muito barulho. Não queria que minha respiração cortasse a noite. E ele estava ali do meu lado. Calado também, mas duvido que segurasse a respiração baixinho porque havia outra coisa em suas mãos. Era o mundo.
Era o fim do mundo, porque tudo volta de novo, e quando volta faz bagunça e eu sinceramente não consigo entender aonde vou chegar com isso.
Por mim, acabou os dramas. Não quero fazer parte de um sonho que acaba quando alguém acorda. Eu não quero acordar não. Porque tudo volta e quando volta trás coisas indesejáveis junto.
Ninguém se preocupou em perguntar: "Ela está bem?"
Não, cara, ela não está.
Ela está perdida num mundo de confusões. Mas está nas mãos dele. 
Profundamente sem saber para onde olhar. Ela olha para a rua a frente do carro. Tudo meio escuro, com algumas luzes que vinham de longe dos postes na rua. Estava um tempo bom. Mas sentia que mesmo que estivesse frio ela estaria queimando. Ele estava ali, sentado perto dela, sem a olhar, mas sabendo exatamente o que pensar e o que ela estava pensando. "Devemos nos beijar agora?"
Porque na real, nunca é bom o bastante.
Ela poderia sair dali. Sim, poderia. Poderia ainda mais: abrir a porta do carro e sentir a brisa gelada invadir o ambiente por baixo. Seria a realidade lhe chamando baixinho: "Vem deitar comigo", e ela iria. Diria ainda: "Por mais que eu te adore, acho que não vale a pena." 
Mas ninguém se pergunta se vale ou não. Dão sempre moedas falsas que na verdade não valem nada. 
Ela sairia andando meio que ziquezagueando no meio da avenida. Faria uma dancinha estranha, sorriria para si mesma e se sentiria completa. Não totalmente, é claro. Mas estaria normal, como sempre esteve. Nunca cheia, mas na maior parte do tempo vazia.
Não entendia como conseguia sair dali dançando e querendo mandar o mundo para os ares. 
Era como se do nada começasse a tocar sua música preferida e do nada alguém bonito o bastante aparecesse na sua frente e do nada vocês começassem a se abraçar.
Sempre assim, do nada. Do nada para não ter tempo para as esperanças e expectativas. Do nada, para não ter tempo de perguntar: "Do que você precisa?".
Do nada para não ter que olhar nos olhos e esperar sentir alguma coisa. De não ter tempo de segurar na mão e ficar fazendo charme. 
É só descer do carro, fazer uma dancinha estranha e se entregar a insanidade que fica guardadinha escondida nas profundezas desse peito macio.
É a sua liberdade. É a sua própria avenida que você vai enfeitar com o seu corpo. É aquela festa em que você bebeu todas e ficou feliz por isso.É o biquini pequenininho que marca seu corpo com o sol. 
Mas lá estava ela de novo. No carro, respirando baixinho para não causar estrago. Era sempre assim. 
Uns mais, outros menos. Todos ficam sozinhos alguma hora.
Ela só queria manter segredo. 
Não iria espalhar para o mundo que queria descer do carro e não ter que encarar aqueles olhos. Olhos estranhos que só tinha visto em sonhos. 
Consegue sentir essa energia de gente que nem se conhece e já se deseja?
É desse tipo de coisa que eu estou falando.
É algo estranho quando você tenta se auto-governar. Porque tudo volta e quando volta está anárquico. 
Ela tenta disfarçar.
"Está tudo bem?".
Ele riu como se fosse uma pergunta besta.
"Tem torrada no forno?"
Ela riu porque ele não respondeu.
"O que você quer que eu faça?", finalmente ele perguntou virando o pescoço.
"Quero que dance comigo." Pensou. Só pensou.
"Quero nada."
Fingia estar tudo bem.
Era o seu mundo ali nas mãos dele.
Profundamente confusa sobre o que pensar. 
Ia descer do carro, andar devagar, olhar fixamente ao longe, procurando aos montes alguém para dançar.
Só queria dançar.
Do nada parecia que tinha uma mola no seu peito. 
Tudo deu uma girada. 
Porque tudo volta, 
e quando volta não quer saber se está bem ou não.
Não quer beijo, não quer abraço, não quer dança.
Porque a real é que a vida samba. 
Samba de pessoa para pessoa e não há tempo para pausas. 
Ou você desce logo e convence a avenida a servir de palco,
ou fica ali naquele inferninho, engolindo o caos a cada respiração, tentando não fazer barulho.
Porque nunca é bom o bastante, e do nada ela está de novo ali sentado ao lado dele.
Respirava baixinho para não fazer o seu barulho e cortar a noite.
Era uma noite estranha ao som de uma banda legal.
"Ela está bem?" 

domingo, 15 de junho de 2014

É a vontade de ser como você

É a vontade de ser como você.
É a verdade para assumir que desse jeito não dá mais e que não tem graça. Não tem o cheiro, os mesmo sonhos, a malícia de dizer qualquer coisa e logo em seguida escutar os anjos gritando pela sua alma.
É sentir que vale a pena e que não é só por você. É a vida que você cria e sentir que é importante pra alguém. A gritaria, a insanidade, a melhor coisa do mundo e o sorriso mais sincero.
É o último café frio no meio da noite, mas que ainda assim é bom porque sua companhia é ainda melhor. É o entendimento sem explicação. É a troca de sensações e sentimentos que provam que nada, exatamente nada passa por passar.
Isso é eu supondo como é ser você.
Porque eu sendo eu sou só eu.  Aqui. Sem gente gritando por mim. Sem insanidade. Gente em um canto sem nada de muito legal em um mundo um tanto sem graça com comida sem sal.
É o chá gelado sem gosto.
É a vontade de ser você porque ser eu não vale.

E eu quero valer. 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Dos meus mares, o maior.

Tuas mãos são como grandes balanças,
e elas balançam como o ar
que não para
e vem correndo e agarra todos os desesperos
e anseios
e medos,
daquele lá que fica sozinho
pensando nos sorrisos,
nos abraços apertados dos amigos,
daquele momento de se sentir infinito,
e ela corre
porque permanecer ali já não é mais vantajoso.
Sejamos francos um com o outro:
ele não existe,
ela escuta os aviões.
Tua voz meio rouca diz assim:
Eu vou te levar pra longe,
espero que o seu coração seja forte o bastante.
O mar ri,
porque ela não acredita
e mesmo assim
facilita,
para que seus aviões voem livres.
Está lá em cima,
vê?
É o desejo de estar perto,
aquele quase orgasmo,
a sensação de que depois dali nada mais vai esperar por você,
e querer sair dali
porque o ar já não existe mais,
e sente o mundo girando,
e tudo dançando a sua volta,
ela não volta,
não volta
e não volta.
Ficou ali passando mal no meio do mundo.
Seu mundo,
sujo,
cheio de fome,
cansado,
mas seu.
Porque deve se tratar disso mesmo,
esse lance de Carpe Diem 
e essas coisas de fazer e realizar.
Se fazer
e se realizar.
Se não tivesse feito,
não teria se realizado.
Se não tivesse pago,
não teria entrado.
Se não tivesse esperado por mais de 10 horas em pé,
sem comer,
sem sair,
tendo chorado um pouco,
não teria saído correndo para dentro quando o portão do inferno abriu.
Tentaram impedir.
Ela recuou,
mas quer saber de uma coisa?
Ali era tudo seu,
porque ela comprou com sonhos,
e correu.
Segurou tão firme na mão do seu santo
que sentiu sua alma sair pelos olhos ao ver a imensidão daquilo.
Era lindo.
E esperou mais um pouco em pé.
A cabeça a mil.
Os pés doendo 
e as pernas querendo ceder.
Ela estava lá para ver.
Ela tentou sentar no meio do mundo.
Quase foi pisoteada,
e esmagada. 
Não sentou mais. 
Ajudou seu santo a se levantar.
Quase o machucaram também.
Achou graça quando o santo gritou com o mundo pedindo espaço.
Ele só estava ali porque ela estava. 
E ela estava ali por que devia.
Sorria,
mesmo quando seu corpo doía.
Que coisa estranha essa de harmonia.
Ela ainda sorria.
As luzes foram ao breu.
O barulho que ela escutou fez seu coração explodir de dor.
Não sabia se ela iria aguentar até o fim.
Chorou.
Mas chorou muito.
Nunca chorara tanto,
mas estava feliz.
Tentou chegar mais perto e quase se machucou.
Tentou manter-se em pé.
Sentiu sua mão escorregar.
Seu santo tinha ido viver a harmonia dele.
Só estava ali porque ela estava.
Eles estavam lá,
no alto.
Vê?
É aquele quase orgasmo de novo.
O desespero de encarar o verde,
o azul
e o castanho dos olhos.
É ouvir a voz e gritar como se sua garganta fosse feita de ouro.
E não saber se chora ou se ri,
e na dúvida
chora e ri ao mesmo tempo.
O olhos ardendo,
o corpo cedendo,
o santo morrendo.
Não sabia se aguentaria.
Sentiu uma coisa estranha no peito.
Parecia queimar.
Estava passando mal de novo.
Levantou a cabeça tentando respirar,
buscar aquele ar,
e o seu rosto que de tão suado e molhado de choro
parecia o mar.
Sentiu uma brisa no rosto
e o mundo dançava e pulava a sua volta.
Umas pessoas desceram de seus mundos e lhe perguntou: 
"Está tudo bem?"
E ela chorando feito criança,
gaguejando,
respondeu que sim.
Mesmo sabendo que não.
Tentou se recuperar e olhou pra frente.
Era o seu santo.
Estava sendo carregado para fora dali.
Bem vindo seja
o desespero.
Ela gritou,
chorou ainda mais,
puxou os cabelos.
Tentaram acalmá-la.
Ela não cedeu.
"Ele está comigo,
por favor não me deixe sozinha."
Ele só estava lá por ela.
e ela
vice-versa.
"Por favor"
E chorou.
Ela estava perto. 
Estava feliz.
Estava insana,
e quase por um triz não se desfez
e se deixou ficou por ali mesmo.
Antes de acabar,
seu corpo já não aguentava mais.
Ela ia desmaiar e ser pisoteada pelo mundo.
Reaja!
Ela deu as costas
e cedeu.
Saiu andando por entre vários mundos.
"Eu estou passando mal,
por favor, me deixa passar."
Não deixava.
Ela insistia.
Bem vindo seja novamente o desespero.
Quando caiu por terra,
na realidade,
fora de seu mundo,
ela desabou.
Percebeu como o chão era fofinho.
A gritaria continuava.
Eles ainda estavam lá no alto.
Era maravilhoso.
Como ninguém mais consegue sentir isso?
Ela estava de joelhos no chão em um canto.
Chorava toda sua vida pelos olhos.
E tampava o rosto para ninguém ver seus olhos inchados.
Havia acabado.
Perdera seu santo.
Voltara a realidade.
Crueldade,
para quem só quer viver de sonhos,
e nos seus planos,
por mais insanos,
não passavam estranhos.
Do outro lado da rua, fora daquilo tudo, achou seu santo. 
Fora o abraço mais que tanto.
Tando de dor,
sofrimento
e agonia.
Era maravilhoso.
Os dois choravam.
Estavam na beira da rua enquanto passava muitos carros.
Pessoas por todos os lados.
A realidade voltava trazendo flores.
Era o soluço que repercutia em cada músculo do corpo,
as pernas que já não se aguentavam,
a fé que estava abalada,
as mãos que como balança,
balançava.
Era o sonho que por pouco 
acabara.
Fora o dia mais feliz de sua vida.