segunda-feira, 14 de abril de 2014

Tchau com T de Volte aqui

Eu disse que aquele seria meu último café e fim.
Então eis que me veio, correndo, quase que implorando que ficasse. Segurou meu braço, quase que o arrancando de meu corpo. Fingiu que não estava implorando, mas ambos sabíamos que de santo ali nem a moldura de sua vó na parede.

"Vou-me embora. Me solta."
"Deixa de ser besta, menina. Tu bem sabe que sozinha lá fora tu não é nada. Te fazem de animal e ainda comem de você com as próprias mãos."
"Me deixa. Porque eu queria ficar, mas quando desfiz minhas malas, tu não soube como lidar com a situação. Ter mulher em casa nunca foi seu forte, não é mesmo?"
"Tu não sabe o que diz, mulher."
"Sim, eu sei sim! E tu que não me aponte o dedo na cara me dizendo o que fazer. Eu vou sim. Vou e não volto. E se voltar, caso volte mesmo, será pra te cuspir umas verdades que há tempos penso em dizer. Mas deixe como está. Pior que isso não fica."
"Não percebe o que fizeram contigo? Enfiaram coisas na sua cabeça que nem Deus há de acreditar!"
"Não fale o nome de Deus em vão."
"Falo sim! Assim como falo que esse seu Deus aí nunca me foi nada. Não entende que o aconteceu foi tudo carnal? Terreno?"
"Não me importa nada que saia da sua boca. Agora me solta!"
E ele me segurou ainda mais forte. Como se eu fosse um pedaço de carne em que precisasse amolecer antes de finalmente assar e comer.
Me puxou pra mais perto. 
O calor do corpo dele passava para o meu na mesma proporção que os meus instintos iam dominando o mundo a volta. Estávamos ali, na beira de um inferno, numa valsa inacabável, com um braço suspenso como um pêndulo, e uma boca morta que não dizia nada por medo de falar aquelas verdades que na realidade eram só dúvidas apostadas como críveis. 
"Fala pra mim." E ele praticamente rosnou isso no meu rosto. 
Percebi que seus olhos estavam num tom que eu mal conhecia. Eram aqueles olhos de quem abandona a própria comida por pura vontade de se auto-mutilar. 
Vamos logo acabar com isso. Era o que pensava.
"Fala." Me pressionou mais uma vez.
"Infeliz." Rosnei. Porque era aquilo que ele merecia. 
Ele riu. E foi um riso tão bom que me deu vontade de me afogar naquilo. 
Porque estava fazendo isso?
"Você sabe."
"Sim, eu sei."
"Sabe."

E já tinha acabado. 
Nos beijamos. 
Ele soltou meu braço. 
Dei um tapa na cara dele.
Bati a porta. 
Tchau, Eduardo.
Tchau.

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