sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Retrato falado


Tudo ao seu redor girava. Era como uma imensa roda gigante. Nada parecia fazer sentido.
Seu rosto queimava em brasa, mas ninguém entendia. Ela também não entendia o porque de tanta dor.
Para tapar os buracos desta avenida defeituosa chamada de vida ela bebeu. E seu mundo girava e a balançava.
Estava assim, sentada com os pés firmes no chão. A piscina azul em sua frente a convidava a um mergulho. Seus olhos a enganavam, já não sabia mais onde estava. Só o que estava sentindo. Já era o bastante.
Havia um grupo de pessoas sentadas no sofá cama ao lado. Só observando e sorrindo entre eles. Ela, sentada sozinha no sofá cama ao lado, pensava. Nada fazia sentido. Só a sua dor. Já era o bastante.
Todos falavam muito. E muito alto, mal conseguia escutar os seus próprios pensamentos. Tudo girava e a balançava.
Decidiu levantar e sair dali.
Foi erguendo-se aos poucos. Suas pernas estavam moles, não aguentavam o peso de seu próprio corpo.
-Hannah não levanta não. - Algumas vozes aconselhavam.
Ela escutou, mas jogou aqueles conselhos no lixo como todos os outros que já havia escutado.
Seguiu em pé diante de três longos passos. Caiu.
Algumas sombras lá atrás riam.
Caiu de quatro, lentamente.Rastejou um pouco e encostou-se em uma  parede fria. Alguém fora buscar um copo de água.
Encostou lentamente sua cabeça nos joelhos. Tudo girava.
A água chegou. Ela pegou o copo na mão como se fosse uma granada. Granada agora era o seu coração, prestes a explodir por tão pouco. Tão pouco mundo que não importa. E tudo acaba então em nada.
Bebeu em três goles o líquido cristalino.
Largou o copo pelo chão.
Tapava os olhos com uma mão. Seus olhos se negavam a derramar lágrimas. Se negava.
Alguém distante veio lhe falar algo.
-Está tudo bem, Hannah?
Ela não destampou olhos e não respondeu.
O estranho insistiu.
-Me diz alguma coisa. Quer que eu te deixe sozinha?
Ela destampou os olhos calmamente. A maquiagem borrada, a boca vermelha.
-Por favor. -Pediu ela.
O estranho se levantou e foi para longe.
Um mar de pensamentos gritavam em sua cabeça para ela escutar. Eram na verdade monstros de coisas que nunca haviam acontecido e que nunca vão acontecer. São sonhos. Aqueles mais profundos. Aqueles que mais se deseja. Aqueles que nunca se realizam. Aquele mostro de alguém te abraçando e enquanto a garoa fina cai em seu rosto você só observa que não faz sentido nenhum buscar sentido na vida. Esta estrada tortuosa e cheia de buracos.
Seu corpo se deita na grama verde observando a chuva translúcida enquanto o mostro do tempo passa e sua música favorita toca nos confins de algum universo.
Na verdade, Hannah se cala diante do mundo. Não vale a pena falar. Não vale nada. Quem realmente quer escutar já sabe de toda a história sem que ao menos ela seja contada. Quem quer falar já falou tudo e mais o mundo sem nem abrir a boca.
Hannah estava assim. Observando seus monstros internos gritarem o mais alto que puderem, e enquanto este momento durar não será necessário falar e nem escutar. Quem é para saber já sabe.
Ela estava tão bêbada quanto um ser qualquer. Quanto qualquer um de nós que pesca uma vida interessante, sem que seja estressante se encaixar e buscar um caminho que não seja tão irônico. Mas são tão poucos aqueles que realmente encontram. Tão poucos.

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