sexta-feira, 27 de junho de 2014

Ela está bem?

Estávamos sentados dentro do carro sem saber muito bem o que fazer. Eu respirava devagar para evitar que fizesse muito barulho. Não queria que minha respiração cortasse a noite. E ele estava ali do meu lado. Calado também, mas duvido que segurasse a respiração baixinho porque havia outra coisa em suas mãos. Era o mundo.
Era o fim do mundo, porque tudo volta de novo, e quando volta faz bagunça e eu sinceramente não consigo entender aonde vou chegar com isso.
Por mim, acabou os dramas. Não quero fazer parte de um sonho que acaba quando alguém acorda. Eu não quero acordar não. Porque tudo volta e quando volta trás coisas indesejáveis junto.
Ninguém se preocupou em perguntar: "Ela está bem?"
Não, cara, ela não está.
Ela está perdida num mundo de confusões. Mas está nas mãos dele. 
Profundamente sem saber para onde olhar. Ela olha para a rua a frente do carro. Tudo meio escuro, com algumas luzes que vinham de longe dos postes na rua. Estava um tempo bom. Mas sentia que mesmo que estivesse frio ela estaria queimando. Ele estava ali, sentado perto dela, sem a olhar, mas sabendo exatamente o que pensar e o que ela estava pensando. "Devemos nos beijar agora?"
Porque na real, nunca é bom o bastante.
Ela poderia sair dali. Sim, poderia. Poderia ainda mais: abrir a porta do carro e sentir a brisa gelada invadir o ambiente por baixo. Seria a realidade lhe chamando baixinho: "Vem deitar comigo", e ela iria. Diria ainda: "Por mais que eu te adore, acho que não vale a pena." 
Mas ninguém se pergunta se vale ou não. Dão sempre moedas falsas que na verdade não valem nada. 
Ela sairia andando meio que ziquezagueando no meio da avenida. Faria uma dancinha estranha, sorriria para si mesma e se sentiria completa. Não totalmente, é claro. Mas estaria normal, como sempre esteve. Nunca cheia, mas na maior parte do tempo vazia.
Não entendia como conseguia sair dali dançando e querendo mandar o mundo para os ares. 
Era como se do nada começasse a tocar sua música preferida e do nada alguém bonito o bastante aparecesse na sua frente e do nada vocês começassem a se abraçar.
Sempre assim, do nada. Do nada para não ter tempo para as esperanças e expectativas. Do nada, para não ter tempo de perguntar: "Do que você precisa?".
Do nada para não ter que olhar nos olhos e esperar sentir alguma coisa. De não ter tempo de segurar na mão e ficar fazendo charme. 
É só descer do carro, fazer uma dancinha estranha e se entregar a insanidade que fica guardadinha escondida nas profundezas desse peito macio.
É a sua liberdade. É a sua própria avenida que você vai enfeitar com o seu corpo. É aquela festa em que você bebeu todas e ficou feliz por isso.É o biquini pequenininho que marca seu corpo com o sol. 
Mas lá estava ela de novo. No carro, respirando baixinho para não causar estrago. Era sempre assim. 
Uns mais, outros menos. Todos ficam sozinhos alguma hora.
Ela só queria manter segredo. 
Não iria espalhar para o mundo que queria descer do carro e não ter que encarar aqueles olhos. Olhos estranhos que só tinha visto em sonhos. 
Consegue sentir essa energia de gente que nem se conhece e já se deseja?
É desse tipo de coisa que eu estou falando.
É algo estranho quando você tenta se auto-governar. Porque tudo volta e quando volta está anárquico. 
Ela tenta disfarçar.
"Está tudo bem?".
Ele riu como se fosse uma pergunta besta.
"Tem torrada no forno?"
Ela riu porque ele não respondeu.
"O que você quer que eu faça?", finalmente ele perguntou virando o pescoço.
"Quero que dance comigo." Pensou. Só pensou.
"Quero nada."
Fingia estar tudo bem.
Era o seu mundo ali nas mãos dele.
Profundamente confusa sobre o que pensar. 
Ia descer do carro, andar devagar, olhar fixamente ao longe, procurando aos montes alguém para dançar.
Só queria dançar.
Do nada parecia que tinha uma mola no seu peito. 
Tudo deu uma girada. 
Porque tudo volta, 
e quando volta não quer saber se está bem ou não.
Não quer beijo, não quer abraço, não quer dança.
Porque a real é que a vida samba. 
Samba de pessoa para pessoa e não há tempo para pausas. 
Ou você desce logo e convence a avenida a servir de palco,
ou fica ali naquele inferninho, engolindo o caos a cada respiração, tentando não fazer barulho.
Porque nunca é bom o bastante, e do nada ela está de novo ali sentado ao lado dele.
Respirava baixinho para não fazer o seu barulho e cortar a noite.
Era uma noite estranha ao som de uma banda legal.
"Ela está bem?" 

Nenhum comentário:

Postar um comentário