domingo, 23 de junho de 2013

E se alguém vier me perguntar como eu me sinto hoje, eu direi que me sinto largada no mundo

Tem uma imensa bagunça na minha cabeça agora. São pensamentos perdidos, milhares de ideias e coisas que vem na minha cabeça, e eu não sei como me livrar disso.
Hoje é sábado.  Não tive curso de cinema hoje. Passei o dia inteiro sem fazer nada. Fui ao centro, mas foi coisa rápida. E acho que só agora eu percebi o quanto eu vou sentir falta desse curso quando acabar. Percebi que já criei um laço afetivo com todo aquele ambiente, com as pessoas. Talvez isso seja bom.  O que não é bom é eu ficar em casa neste sábado de frio a noite.
Meus amigos hoje acabaram me chamando para ir passar a noite na Augusta. Fizemos isso da primeira vez (e aparentemente a última também) e deu muito certo. Vi muitas coisas. Muitas pessoas legais, bonitas, estranhas, bêbadas. Mas acho que o mais legal nem foi “passar a noite na Augusta, olhem para mim, olhem como eu sou alternativa!”, mas o modo como me senti naquela noite foi algo especial. Pela manhã quando estava voltando para casa de trem com o meu amigo, o mesmo que foi assaltado comigo, me deu vontade de chorar. Várias vezes e por vários motivos.  Não sei se vou querer ou me lembrar de todos, mas com certeza o mais especial, e lindo, e marcante e infinito foi quando eu conheci o amor da minha vida.  Um estrangeiro que eu nunca vira antes. Se eu bem me lembro era cerca de 4 e pouco da manhã, quase cinco, e estávamos subindo a Augusta em direção á Paulista, quando eu passei entre a Augusta e a Mathias Freire.  E ele então passou por mim. Nunca na minha vida eu me senti tão amada. E foi lindo. Na frente havia seus dois amigos, mais animados conversando sobre bebida. Lembro-me bem que não eram daqui. Eles tinham um sotaque latino. Talvez do Peru, Chile ou Argentina. “És pinga ou cachaça?” Conversavam animados. E ele estava atrás fumando. Quieto.  Eu passei por ele olhando muito fixamente nos seus olhos. Acho que o pior de tudo é saber que não o reconhecerei se o encontrar novamente. Não reconhecerei. E isso é triste. Ele ficou olhando fixamente eu meus olhos. E neste momento eu soube que ele fora o grande amor da minha vida, que curaria todas as minhas feridas e dores. Mas soube também que nunca mais tornaria a vê-lo. É muito estranho pensar nisso. Fui amado por 10 segundos. E esses 10 segundos foram os mais plenos e belos da minha vida. Quando ele passou, eu fiz algum comentário com o meu amigo e ele continuou olhando para mim, como se estivesse me esperando. E eu não tive coragem de voltar e então ele cruzou uma esquina junto com os amigos que o puxavam e sumiu.
Desde então eu fiz daquela a nossa rua. E isso é lindo, mas é muito triste. Muito triste. Mais triste ainda sabendo que hoje os meus planos eram ir até lá, passar a noite na Augusta, mas como sempre meus pais não deixam. Engraçado eu dizer isso. Me dá uma impressão de que eu ainda sou uma criança de 9 anos. Mas não. Tenho 17. Não que isso me faça adulta. Muito pelo contrário. Mas não sinto liberdade. Me falavam tanto que a adolescência é a melhor fase. A fase de descobertas, de novas experiências. Mas no meu caso, é só uma fase. Uma fase de merda que está demorando a beça para passar. E agora eu não sei. Minha cabeça está uma bagunça. Cheia de névoa e sim, eu queria muito chorar agora.
Não sei como vai ser a noite dos meus amigos, eu pedi para eles irem. Mesmo sem mim. Só sei que a minha noite vai ser um grande nada. E isso me deixa sem chão. Parece que eu não estou vivendo. Entenda, que viver para mim não significa “passar a noite na Augusta”. Aliás, eu nem estou mais falando disso. O que digo é que sou invisível. Eu não participo. E é aí que eu me diferencio do Charlie, do As vantagens de ser invisível. Ele participou, ou pelo menos tentou participar da vida. Eu não. Eu só queria, na verdade, uma vidinha quente, empolgante e linda. Quando eu penso numa vida assim eu penso logo em flores, suco natural de laranja sem açúcar, engenheiros do hawaí, pés descalços, praia, sítio, estrelas, livros, crianças. Mas eu não participo, sou apenas coadjuvante de uma vida de merda. No caso a minha, porque a vida dos outros parecem sempre mais empolgantes. Eles podem ir passar a noite na Augusta.
Não sei não. Não consigo me imaginar no futuro. Talvez nem deva pensar nisso. Mas eu penso e não consigo me imaginar. Geralmente as pessoas têm planos de se formar em uma faculdade, trabalhar com a carreira dos sonhos, casar, ter filhos, ser  feliz. Essas coisas sem graça de vidas clichês. Eu apenas não me vejo fazendo uma faculdade. Não sei se vou jogar toda a merda no ventilador e ir fazer a faculdade que eu quero e seguir a carreira que eu quero. Pelo menos agora que é virar professora. Ou seu vou me submeter (como sempre fiz então muito provavelmente farei isso) aos planos e aos anseios dos meus pais e fazer o que eles querem. Talvez engenharia de alguma coisa, TI, algo assim. Algo que dê dinheiro. Isso, algo que me dê status e dinheiro. Aparentemente é só isso que importa. Sou nova e todo o resto eu posso conquistar depois. Meus sonhos e meus anseios eu faço depois, afinal, eles não são tão importantes quanto eu ter dinheiro, meu próprio carro, minha própria casa, minha própria empresa, meus próprios empregados. E eu não sei não. Tenho medo de surtar no meio do caminho. Até hoje me perguntam como eu consigo segurar o mundo nas mãos e não desabar. E eu me faço a mesma pergunta. Como consigo?
Sempre abri mão de mim. Sempre preferenciei pelos sonhos dos outros. Mesmo que esses outros não sejam meus amigos. Talvez isso seja bom, talvez não. Não acredito em carma nem nada disso, mas talvez toda essa minha bondade tenha retorno. Viver nessa merda para toda a vida não é uma boa ideia. E eu não sei como mudar. Não sei se tem como mudar. Não sei se quero mudar. “É o fim do mundo todo dia da semana”.
E se alguém vier me perguntar como eu me sinto hoje, eu direi que me sinto largada no mundo. Sem amor, sem flores, sem engenheiros do hawaí, sem Augusta. Só eu com o frio num quarto escuto jogando Pac-Man pelo computador.

22-06 Sábado

Um comentário:

  1. Faça com sua vida, com algo que ocupará 8 horas diárias dela todo dia, o que você - e apenas você - quer. Apenas o que te encanta, apaixona... Bj

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